[+18] Little Annie Fanny

por F.A. Moretti

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Little Annie era uma loirinha de olhos azuis, peituda e meio burrinha que vivia divertidas aventuras eróticas na revista Playboy. Foram 106 histórias em 26 anos.

Personagens femininas não eram novidade, pois a moreninha sensual Betty Boopy já havia mexido com o coração dos marmanjos, mas Little Annie (ou Aninha) era diferente, tinha algo de inocente.

Na época em que viveu Annie, havia uma grande tendência para o uso de roupas coloridas e dançar musicas agitadas. Os jovens tomavam uma postura irreverente face ás mudanças da América do Norte. Eram os oscilantes anos 60.

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A revolução sexual estava vindo à tona com toda a força. As revistas masculinas discutiam assuntos tabus. Os homens se desinibiam e as mulheres americanas soltavam a franga. E tal qual as garotas da Playboy, Little Annie também ficava nua (embora muitas vezes de forma involuntária).

Em suas aventuras ela não perdia a oportunidade de mostrar os seus belos seios para o delírio da galera. O curioso é que os mamilos foram mudando no decorrer das histórias; eram vermelhos e durinhos e depois ficaram rosados e macios, preferência nacional dos EUA.

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Assim Little Annie fez a fama. Mal sabia que seria o segundo ícone mais famoso da Playboy, pois além da silhueta de coelho (que consagrou as coelhinhas da revista) os seios de Annie também se tornariam o símbolo de uma geração.

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Annie também foi a primeira personagem pintada (com pincel). As pinceladas artísticas vieram de vários artistas como Will Elder, Jack Davis, Russ Heath, Al Jaffee (criador das famosas dobradinhas da Mad) e outros gênios das cores.

Harvey Kurtzman
Falar de Little Annie é falar de Harvey Kurtzman. Em 1954 ele criou a revolucionária revista satírica Mad, que logo se tornou febre nos EUA.

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Kurtzman editava, desenhava, roteirizava, diagramava páginas e vivia rodeado dos melhores quadrinhistas da época. Mas não tinha uma revista só sua. A Mad era propriedade de Willian Gaines, editor da EC Comics.

Nesse mesmo ano, outro quadrinhista, Hugh Hefner, criou uma revista revolucionária que se tornou sucesso imediato. Assim como Kurtzman, ele escrevia, diagramava páginas e vivia rodeado de grandes talentos. A diferença que era dono da sua revista: a Playboy.

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Certo dia, Hefner estava despachando os últimos exemplares de sua revista quando viu a Mad numa banca. Gostou e logo fez contato com Kurtzman. E os dois desenvolveram uma grande amizade e respeito mútuo.

No inicio de 1956, Kurtzman resolveu chutar o pau da barraca na Mad e exigiu que o seu valor fosse reconhecido (em dinheiro), mas Gaines recusou. Hefner então não perdeu tempo e contratou Kurtzman junto com Will Elder, Jack Davis, Al Jafee, Arnold Roth e Russ Heath (todos da Mad). Criando assim uma revista de humor chamada Trump.

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O lançamento não foi um sucesso imediato e Hefner, cujo o império estava começando, não quis bancar as perdas. Assim a Trump parou depois de duas edições. Apesar do fracasso, Kurtzman ficou famoso com a revista.

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Ele sempre se esforçou para ultrapassar as fronteiras dos quadrinhos, se dedicando ao aperfeiçoamento da narrativa e produção, e hoje é considerado o padrinho do underground americano (comix). No final de 57 lançou outra revista, a Humbug, que parou no ano seguinte.

Em 1959 publicou o Jungle Book, o primeiro álbum de capa mole todo com artes originais finalizadas a bico de pena e aquarela, com o personagem Goodman Beaver.

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Em 1960 Kurtzman tornou-se sócio do editor James Warren para criar a revista “Help!”, a nova publicação trouxe de volta a equipe de artistas de Kurtzman (e abriu porta para uma nova geração de quadrinhistas undergrounds como Robert Crumb e Gilbert Shelton).

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O personagem chave a Goodman Beaver, com histórias e esboços de Kurtzman e arte-final do mestre da caneta Will Elder.

Como surgiu Annie
Em novembro de 61, Kurtzman escreveu a Hefner dizendo que queria lançar uma série cujo o personagem principal fosse uma garota, meio rude, mas muito gostosa e sensual.

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Hefer adorou a ideia, mas Kurtzman ainda trabalhava na “Help!”. Em fevereiro de 62, na edição 13, saiu a HQ Goodman Goes Playboy, uma paródia divertida sobre o estilo de vida e as orgias romanas de Hefner.

Mas a Archie Comics não achou nada divertido, pois seus saudáveis personagens apareceram na história seduzidos pelo estilo de vida da Playboy. A Archie processou então a revista por infração de direitos autorais e James Warren, não querendo briga, fez um acordo fraco com a editora.

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Embora aborrecido, Kurtzman continuou fazendo a “Help!” (que durou até 1965) e desenvolveu com Will Elder a nova personagem da Playboy. Os quadrinhos seriam pintados no estilo “outlineless” (sem cercadura) que Elder usou no anuncio do cigarro Sgt. Bilko Camel, um sucesso da Trump.

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Will Elder e Harvey Kurtzman

As sugestões de nomes foram várias: “The Perils of Zelda”, “The Perils of Irma”, “Perils of Sheila” e até “Little Mary Mixup”. Enfim Hefner e Kurtzman concordaram com Little Annie Fanny, uma paródia de Little Orphan Annie (A Pequena Orfã), de Harold Gray. Até a logomarca tinha a mesma tipologia.

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No auge da fama, muita gente famosa apareceu nas aventuras da carismática peituda. Atores de cinema (John Wayne, Marlon Brando, Peter Selers, Kirk Douglas, Sofia Loren, Marcello Mastroianni, Sean Connery), políticos (Martin Luther King, John Kennedy, Nikita Kruschev, Fidel Castro) e cantores (Frank Sinatra, Bob Dylan, Os Beattles).

Matando Saudades
As deliciosas aventuras de Annie saíram até setembro de 1988. Harvey Kurtzman veio a falecer em 1993 e infelizmente Little Annie se fora com ele.

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Anos depois a Playboy tentou ressuscitar a personagem com a história The Unnatural Enquirer (texto de Ray Lago e arte de Bill Schoor). Não era ruim, mas faltava a magia de Kurtzman e Elder.

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Pra quem nunca leu ou deseja ler de novo, existem dois álbuns editados pela Dark Horse e Playboy. O volume 1 trás histórias publicadas entre 1962/70 e desenhadas por Paul Cocker Jr, Jack Davis, Frank Frazetta, Russ Heath, All Jaffee, Bob Price, Arnold Roth e Larry Siegel.

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O vol. 2 (de 71 a 88) trás a mesma quantidade de histórias e o mesmos artistas, incluindo informações sobre Kurtzman, Elder e toda a equipe de artistas que participaram de uma das mais revolucionárias HQs de todos os tempos.

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Sobre ricamorim

Produtor de quadrinhos independentes.

Publicado em 30 de outubro de 2016, em [+18] e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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